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Entrevista a Luis Vallejo

Por Pedro Paes
(Editor Spainbonsai.com)

Luis Vallejo, é de sobra conhecido no universo do bonsái e qualquer apresentação  arrisca- se a pecar por omisao. Ainda assim, atrevemo-nos, conscientes de que grande parte da biografia deste artista consagrado ficará no tinteiro... mas isto, só pretende ser uma pequena introdução.
Nasce em Madri em fevereiro de 1957, de pai viverista. Sua infância e adolescência discorre num meio natural; o viveiro familiar. Depois de finalizar os estudos primários, ingressa na Escola Técnica Superior de Engenheiros Agrónomos de Madrid. De profissão Paisajista, cultiva Bonsái desde há mais de trinta anos. Os seus começos como autodidata acabam quando assiste a cursos, demonstrações e exposições com os maestros, J Naka, S Kato, M Kimura, entre outros.
Dá conferências, demonstrações e ateliês desde 1985 em toda Espanha e em outros países. Publicou alguns livros sobre Bonsái e tem colaborado em innumeras revistas e publicações. É sem dúvida o maestro Espanhol que mais prêmios Internacionais recebeu. Dentro de sua atividade profissional de projetos de parques, jardins públicos e privados, projeta diferentes espaços para expor bonsái e exerce de curador das mais importantes coleções de bonsái de Espanha.

(P) Como e quando começou a interessar-se pelo mundo do bonsái? Como conheceu o bonsái?

Como quase tudo através dos livros. Meu pai, que era um homem curioso e interessado por tudo o que era jardinagem, horticultura ou cultivo, encontrou numa livraria de Nova Iorque (EUA) três livros, que guardo ainda hoje, cujos autores eram os diretores da Nipón Bonsái Asociation, Saburo Kato entre eles. Eu que na época teria uns 15 anos e uma enorme curiosidade pela natureza, quando vi os livros fique fascinado. Por outro lado, meu pai tinha um viveiro o que me facilitou o acesso ao material para que, imediatamente, começasse a brincar, e a perceber a natureza em escala reduzida. Assim comecei a descobrir o que para min era o lado “mágico” da natureza.

(P) Que significa hoje em dia o bonsái para si?

Em 2000 escrevi um livro com o titulo “Bonsái, escultura e natureza” que se publicou em Espanha e França, onde tentei expressar o que associava ao bonsái: a arte, a natureza e a poesia. Não é um livro técnico. É uma visão pessoal do que é o mundo do bonsái. Tento, neste livro, abordar a filosofia japonesa: a métrica fixa, a capacidade de síntese, com o mínimo expressar o máximo, e penetrar no microcosmos, associando arte e natureza. Não posso deixar de referir que o bonsái se tornou também numa de minhas atividades profissionais.

(P) O Museu Municipal de Bonsái de Alcobendas é pioneiro em sua concepção, não só arquitetônica, mas também administrativa (Museu Municipal). Que o levo a impulsionar sua criação? Porquê um Museu de Bonsái em 1994?

Todos conhecem o gosto, desde 1987, do Sr. Felipe González (ex-Presidente do Governo de Espanha) pelo bonsái. Este fator criou uma divulgação mediática do bonsái, e a oportunidade histórica da criação deste museu. Na época a Camara Municipal de Alcobendas procurava redesenhar este espaço, conhecido como Ribeiro da Vega. Conhecedores do meu trabalho como projectista de espacos verdes, propusessem-me a criação de um museu de bonsái neste espaço verde em desenvolvimento. Fizemos um projeto, financiado pela Camara Municipal.
Assim nasceu o “Museu Municipal de Bonsái de Alcobendas”, que é um espaço singular, não só em Espanha senão a nível mundial, já que rompe o estilo um pouco estereotipado dos museus de bonsái tradicionais para inovar tanto pelo tratamento dado ao espaço, como pelos materiais utilizados na sua construção, como o chão, os pedestais, etc. É um espaço onde se dá um tratamento privelegiado à árvore como elemento escultural.
A gestão do museu nasce de uma união de interesses. Por um lado a Camara Municipal não tinha capacidade técnica para gerir um espaço com estas características e pelo outro, eu, ao não estar integrado em nenhum sistema comercial, precisava de um lugar onde ter minha coleção particular. Assim  empresto a minha coleção ao museu para que a exponha, e o museu suporta os gastos de manutenção e conservação. O museu esta aberto ao publico e também temos inúmeras visitas de Colégios, não só de Madrid mas também de toda Espanha.

(P) Você viu, acompanhou e ajudou, o desenvolvimento do bonsái em Espanha desde o seu início. Como vê a evolução do bonsái em Espanha ao longo de tantos anos?

Sim, é verdade que acompanhei o desenvolvimento do bonsái  desde o seu início, lá pelos anos 70, quando alguém dizia “bonsái” e a gente se perguntava “bon… quê”?
Pois a verdade é que o bonsái passou por muitos altos e baixos mas, felizmente, agora estamos colhendo o fruto da projeção mediática motivada porque alguém como o Sr. Felipe González (ex Presidente do Governo de Espanha) aderiu a esta arte. Hoje noto, e sobretudo nesta exposição, que a maioria dos autores são gente bastante jovem, entre 25 e 45 anos, que agarraram claramente o impulso a que me referia anteriormente. Vejo isto reflectido na grande qualidade das árvores expostas nesta edição do concurso.

(P) O que é que falta e o que é que está a mais na cultura nacional do bonsái atual?

Creio que o que falta é consolidar o ensino, agora que a divulgação está assegurada pelas diferentes publicações, revistas, etc., faltando talvez unificar critérios em matéria de formação. Está sendo feito um esforço mas seria bom consolidar critérios sobre este tema. Estará a mais, bom, o que costuma estar a mais em qualquer atividade humana, as invejas e as pequenas mesquinharias, mas sem ser algo que chegue a influenciar o mundo do bonsái. Não daria muita importancia a este aspecto.

(P) Porquê organizar a seleção nacional do concurso “Gingko Bonsái Awards” no Museu Municipal de Bonsái de Alcobendas?

É algo conseqüente. Participamos na Gingko Bonsái Awards quase desde seu início, e em todas as participações, ao longo dos anos, sempre fomos premiados. Isto fez crescer o nosso prestígio na mesma medida que o prestígio do concurso ia crescendo também. Falando com o organizador, Danny Use, chegamos à conclusão que se deveria fazer uma seleção prévia, no país de origem. Que melhor oportunidade do que fazer coincidir este concurso com a celebração bienal do Museu de Alcobendas, que é uma entidade independente (municipal), sem vínculos comerciais, ou de qualquer outro tipo.
Isto fez-nos ser a referência nacional, e por outro lado, ajudou a Gingko a ser uma referência Européia e mundial. Apostamos na Gingko porque creio que tem o mesmo critério e espírito que nós, e isto vê-se no nível das árvores expostas.

(P) Poderá algum dia um europeu triunfar no mundo do bonsái?

Suponho que sim. O bonsái é hoje em dia uma arte universal. A natureza está ao alcance de todos. Creio que será uma questão de tempo, dedicação e aprendizagem.

(P) Tem alguma espécie preferida ou com a que se encontre mais familiarizado?

Há varias, mas o que mais me importa é a árvore em si, mais do que nada. Assim mesmo agradam-me especialmente o pinheiro silvestre, a sabina rasteira (zimbro), ultimamente estou descobrindo a oliveira silvestre, os arces, os nossos e os japoneses (que também coleciono), faias, etc.… Em fim creio que é a árvore individualmente o que supõe um desafio. Nós, felizmente, temos a sorte de ter uma natureza muito diversa e rica, com muitas variedades apropriadas para bonsái.

(P) Recorda especialmente alguma árvore formada por si?

Há varias. O pior é  que nestes últimos dois anos tivemos alguns problemas com os pinheiros albares e justamente um deles, a que chamávamos “o número um”  morreu. Isto faz que, depois de 15 ou 20 anos trabalhando e cuidando de uma árvore, te dês conta de que esta se transforma num amigo. Quando sucede um problema deste tipo que não tem solução, o desgosto é enorme.

(P) Tem árvores trabalhadas por mestres do nível de Kato, Kimura, Terakawa (para só mencionar alguns); que se aprende desses encontros?

Espero ter aprendido algo. Aprende-se a ver as coisas de uma forma mais singela, de perceber a natureza de uma forma mais intuitiva. Os japoneses não são tão analíticos como nós e ao trabalhar com eles impregnas-te dessa atmosfera, captada através de um olhar, de um gesto… Desde meus começos tive a sorte de trabalhar com Naka em alguns ateliês, minha antiga amizade com Kimura, e o privilégio de trabalhar com Saburo Kato. Espero ter aprendido um pouco  nestes encontros.

(P) Que planos tem para o futuro?

Para um futuro imediato, estamos terminado agora mesmo o projeto de um novo museu no sul de Madrid, em Parla, o Jardim Botânico de Parla – Museu Bonsái. Este projecto recebeu o XIII Prêmio Alhambra, outorgado pela AJARP (Associação Espanhola de Parques e Jardins Públicos) que é o prêmio mais importante para projetos de parques públicos de Espanha. Por outro lado somos os responsáveis pela conservação e gestão da coleção de bonsái do Real Jardim Botânico de Madrid, que é um museu público e está num local privilegiado do centro de Madrid. Temos algumas acordos com Japão para receber coleções doadas e temos alguns projetos de consolidação desta coleção para que seja uma das mas importantes a nível mundial (fora de Japão) juntamente com o Nacional Arboretum nos EUA.
Creio que estes dois projetos serão a referência no futuro próximo.

Muito obrigado, por receber-nos e felicidades para os novos projetos. Desde Spainbonsai.com faremos todo o possível por apoiar e divulgar os projectos referidos.
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